HINARIOS



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Os Chamados

Eu não me envergonho, pelo contrário, muito me honro de dizer aqui, na presença de qualquer autoridade, na presença de qualquer público, que eu devo ao Mestre Irineu, aos seus ensinamentos, a esta casa, tudo, até a própria existência. A razão de hoje eu ainda viver, eu devo a ele. Tenho certeza absoluta que se ele não tivesse tido compaixão e não tivesse me encaminhado para encontrar uma coisa dessa, eu já teria morrido há muito tempo. (...) [O Mestre era] Também uma pessoa com uma facilidade extrema de comunicação, de fazer amizade: porque era muito educado, o nosso Mestre... Com a mesma atenção que ele dispensava à mais alta autoridade, era com essa mesma atenção que ele tratava o mais humilde também. O Mestre era formado assim dessa natureza. E conversava muito.

Às vezes ele estava até assim um tanto fechado, mas ele só queria que alguém por ali contasse qualquer assunto, que ele tomava conta e conversava tardes inteiras. Às vezes a gente se esquecia até de que tinha casa, e quando se lembrava: "Valha-me Deus, tenho que ir para casa." Já horas tantas da noite, ouvindo o Mestre conversar. Ele conversava muito. Quanto ao aperfeiçoamento propriamente dito dessa doutrina, este se deve única e exclusivamente a ele. Ele pegou essa bebida, como a gente já falou, lá na sua origem, tida como uma coisa grosseira, de qualquer jeito, sabe-se lá como, e tinha até a forma como eles usavam. Aí foi quando ele prometeu que se fosse uma coisa boa ele traria para o Brasil. Trouxe e foi aperfeiçoar, até dar esta denominação: Santo Daime, ou Daime simplesmente. Foi o nosso Mestre quem batizou. O cipó, que tinha diversas denominações, ele batizou como jagube; a folha, que também recebe outras denominações, ele batizou como rainha – que coisa bela! E finalmente foi o responsável assim diretamente para que isso se aperfeiçoasse ao ponto de justamente chegar no que estamos chegando, até cheios de gratidão por realmente ele ter deixado nas nossas mãos um trabalho, uma bebida que tem respaldo nas leis dos homens, desde quando ela foi liberada. E apesar da gente ainda sofrer muita discriminação – e isso talvez não vá ter a condição de faltar nunca, essa discriminação, até pela incredulidade do mundo profano – a gente já não tem tanto subterfúgio. Eu não sei se mais gente está até procurando esconder, eu não tenho em particular o que esconder. "Você toma Daime?" "Tomo." "Mas rapaz, e finalmente qual é o sentido? "Rapaz, é tão difícil de explicar, mas é tão difícil que por mais que eu queira explicar, no final tu não vai acreditar mesmo... Assim tu tem que tomar." É a saída, não tem outra saída a não ser assim. "Por mais que eu vá tentar dar uma explicação, não tendo nem essa explicação diante de tanto mistério, mas por mais que eu tente, você não vai acreditar. Ao contrário você pode até ir desdenhar. Então vai, rapaz, está lá. Convidar ninguém convida. Não vai esperar que você vai ser convidado. Agora, se procurar tem, vai lá, rapaz, vai lá." É como a gente se sai, não é? Porque o Mestre é que se portava assim dessa maneira. Alguém podia morar há cem, duzentos anos com outra pessoa, dividindo a mesma cama, comendo no mesmo prato e até com a mesma colher, mas caducava, ficava velho e não chegava ao ponto de convidá-la. Convidam-se sim para uma determinada festa seus amigos, seus parentes etc. e tal, mas apenas para participar das festividades. Na hora de ingerir aí é livre e espontâneo." Esse depoimento do Padrinho Luiz Mendes, disponível no site do Ciclumig, ilustra bem a sua filosofia de vida e a postura fidedigna que se espera dos verdadeiros discípulos do Mestre Irineu. Recomendamos a visita também ao site do Cefli, onde os leitores poderão conhecer um pouco mais sobre a vida e obra do Mestre-Conselheiro Luiz Mendes do Nascimento. Os hinos que temos agora a felicidade de poder disponibilizar aqui compõem o caderno de Trabalho de Cura do Padrinho Luiz Mendes, intitulado "Os Chamados". Assim como o Padrinho Sebastião Mota tinha seu caderno próprio de hinos de cura e o Padrinho Wilson Carneiro o seu, o Padrinho Luiz Mendes desde os tempos em que presidia o Ciclu no bairro Irineu Serra possuía um caderno próprio, ao qual com o tempo acrescentou outros hinos até chegar a este formato. O trabalho de cura "Os Chamados" faz inclusive parte da programação do "Encontro para o Novo Horizonte" que anualmente é realizado na virada do ano no Seringal Fortaleza, em Vila Capixaba - Acre, sede do Cefli, aproveitando a ocasião do Ano Novo e da festa de aniversário do Padrinho Luiz que, sendo a 4 de janeiro, antecede o festejo dos Santos Reis. A respeito pode-se ler o artigo "Ciberativismo Transnacional: o Santo Daime e a Preservação da Amazônia", de Débora de Carvalho Pereira Gabrich, e também "Luiz Mendes: Porta-Voz do Mestre e Embaixador da União", de Marcelo Bolshaw Gomes, publicados na revista A Arca da União. O Cefli promete em breve estar disponibilizando a programação do próximo Encontro, e agradecemos aos irmãos de Santa Luzia (MG) a possibilidade de veicularmos essas gravações mp3 cujos originais foram registrados em estúdio, e fazem parte dos cds à venda no site do Ciclumig, como os hinários "O Centenário" e "Novo Horizonte" do Padrinho Luiz Mendes.